sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

[CONTO] Paz e Regresso (Ar de Evasão V)

...Paz.

Ana ouviu uma voz abafada ecoar em algum ponto sobre a sua cabeça e sentiu um ardor desconfortável em seu rosto.

A chuva desabava nas ruas, quando ela emergiu ofegando fortemente e cuspindo água barrenta. O tempo parecia ter perdido um compasso, ou ela estava zonza por ter ficado tanto tempo sob a água. A expressão em seu rosto mudara: seus traços, antes suaves e de ar espantado, agora estavam duros, amargurados. Carregados de culpa.

- Não – ela fechou os olhos – Não, não.

Lembranças invadiam a sua mente como flechas em fogo – ela era um alvo atingido pelo próprio cérebro, com sérias dúvidas quanto a poder caminhar. Sacudiu a cabeça diversas vezes, na tentativa frustrada de afastar aquela torrente de memórias – um acidente, uma criança... o seu menino. Era ele que Ana viera buscar, ali.

Gritou, mas não ouviu a própria voz.

Viu-o novamente, encarando-a de longe, sorrindo – o menino de olhos cor de mel. Ana disparou em direção ao morro do fim da rua. Tinha a impressão de ver tudo ao redor através de uma cortina cinzenta e nebulosa, enquanto dava passos firmes, chapinhando água com os pés. Decidindo que não havia tempo a perder, correu, como se a sua vida dependesse disso.

- Ana, volte!

A voz grave de Lucas chamou uma última vez e soava preocupada: aparentemente, ele não poderia segui-la. Ela ouviu o murmúrio novamente, desta vez formando uma palavra discernível: Paz. Ela fez um giro completo com o corpo, procurando a origem do som, e percebeu que vinha do garoto, que a observava de um ponto adiante. Ela já sabia o que fazer, sabia que precisava seguir sozinha.

E a direção era morro acima, onde ele fora jogado numa vala, como indigente.

Até chegar ao fim da rua, aonde se dirigia, Ana viu os sinais da enchente: bombeiros ajudavam crianças e idosos e atravessar a água, pessoas gritavam desesperadas por parentes. Todos estavam muito ocupados com suas próprias tragédias para reparar em uma moça baixinha que passava desembalada, sem cuidar dos possíveis buracos escondidos sob o tapete de água, que alcançava seus joelhos. Um cachorro pequenino cruzava a água diante dela, aqui e ali afundando na água lamacenta.

Parte da rua estava bloqueada por cordames, que ligavam uma casa a outra. Dois carros estavam empilhados um sobre o outro e a água começava a subir ali, também, embora Ana já tivesse deixado a parte baixa da cidade. Uma lama espessa atrasou seu ritmo, mas ela alcançou o sopé do morro em alguns minutos. Seus olhos miravam o fim da rua, fixos na edificação do topo, onde o menino a aguardava. O prédio estava visivelmente em ruínas e a ponto de desabar.

Outra equipe de bombeiros, à sua direita, ajudava uma família inteira a escapar, agarrados nos cordames. Ana seguiu pela esquerda, onde havia árvores ainda de pé, e   começou a escalar, de tronco em tronco. Como os caules remanescentes estavam juntos, não foi preciso muito esforço.

Parte do morro havia desabado e muitas árvores foram arrancadas e arrastadas junto com o barro e os casebres, como Ana verificou. Ela levou cerca de meia hora para atingir o topo do morro e, uma vez parada à beira do penhasco instável, parou, contemplando o prédio que o encimava.

Naquela parede, pichada em tinta vermelha, viu o que procurava - uma palavra descascando da murada interna do enorme casarão imperial, Paz, visível apenas porque parte do muro externo havia sido levado pelo desabamento, deixando um estreito vão entre a parede e o abismo. E era por aquela fenda que ela precisava passar, se não quisesse dar a volta na murada, de quase cinquenta metros de extensão.

Um cão de rua, vindo não se sabe de onde, farejou o terreno perto da palavra descascada e começou a escavar. Ana não hesitou antes de agarrar-se a pedaços curtos de vigas, que se desprendiam do muro. Segurando-se firmemente, ela passou para o pátio do único casarão imperial de Alexandre, seu prédio mais antigo, onde o imperador D. Pedro II certa vez, se hospedara, quando de passagem pela cidade. Os cidadãos ainda davam uma estúpida importância ao fato e a casa, não estivesse em ruínas e a ponto de desabar, ainda seria um sítio histórico.

Até as últimas chuvas, toda a sua imponência histórica servira de tela para pichadores. Mas aquela palavra pichada, em especial, Ana desejava que nunca tivesse sido feita.  Tornava tudo real.

Sob a letra A, o menino de olhos cor de mel, que a esperava recostado à parede, se dissolveu no ar. Abandonando toda a gravidade, Ana correu até o local, afugentou o cachorro sacudindo as mãos e continuou o trabalho do animal, com as mãos nuas. Seus olhos estavam em fogo, como o topo de sua cabeça.

O trabalho foi facilitado pela água da chuva, que revolvera o terreno e umedecera a barreira. Ela cavou freneticamente e sem cessar até que alcançou um objeto sólido, uma caixa de madeira empenada. Parou para secar o rosto, que se manchou de barro, e já se abaixava para continuar escavando quando uma mão apertou firmemente o seu ombro.

- Ana, já chega. Não pode ir tão longe – era Lucas.

- Não!

 Ela se soltou para tentar escavar novamente, mas enquanto desviara a sua atenção por segundos, o cenário inteiro mudou. Ela já não estava ajoelhada sobre a lama, atrás do velho casarão imperial. Trajava um vestido florido, semelhante ao que recebera de Lucas, para o casamento. Sentada sobre grama verde e seca, inalando o inconfundível perfume de lírios, Ana vislumbrou uma pequena lápide de mármore. Esta exibia a foto carcomida de um menino de olhos cor de mel e duas palavras em letras pretas carcomidas: Pierre Fortes.

- Tente o quanto quiser, não pode mudar o passado. E ele não vai voltar.

- Não, Lucas.

- Ana, volte, agora.

Ela travou o maxilar e estas últimas palavras ecoaram nas paredes de seu cérebro como ondas pesadas. Sua cabeça começou a ferver: mãos em fogo comprimiam seu rosto e Ana sentiu não apenas seu corpo sacudir, mas algo sendo escavado em seu peito. Sem oferecer resistência, sentiu-se puxada pela cabeça, pela força do vento, através de um longo canal mal iluminado que ficava mais claro à medida em que ela avançava; disparou em uma velocidade vertiginosa e seu corpo congelou, segundo a segundo. Intimamente, teve a sensação familiar da iminência de uma batida e fechou os olhos com força.

- Pode abrir os olhos, agora – a voz de Lucas denotava desespero.

- Lucas, o que foi isso? – a voz da avó de Ana se sobrepôs a um estranho barulho de sucção.

- Não sei, por um momento, pensei que havia algo errado. Amélia, ligue para a primeira dama e avise que ela acordou, por favor.

Afastando as pálpebras, Ana se descobriu presa em um enorme cilindro de vidro, sem uma peça de roupa. Tubos se desligavam dos seus braços e de sua cabeça, e o nível do líquido amarelado em que estava submersa baixou gradativamente. Seu corpo cedeu ao próprio peso ao passo que a substância chegava ao chão. Chegando ao piso metálico e gelado, ela viu sua corrente de ouro velho quase ser levada pelos tubos de água, mas conseguiu apará-la pelo pingente.

Um Lucas envelhecido e de bigodes grisalhos a encarou, enquanto abria uma porta no cilindro, passava um braço por sua cintura e a ajudava a levantar. Ela percebeu que deixava a correntinha para trás, mas poderia voltar para pegá-la mais tarde. Os dois caminharam aos tropeços na direção da porta e Ana arregalou os olhos quando viu seu reflexo no cilindro de vidro. Quem era aquela pessoa que a mirava de volta?

Mais tarde, Lucas e Ana passaram muito tempo sozinhos num quarto improvisado, no andar superior. Havia poucas roupas no armário e algumas malas no chão - se estavam sendo feitas ou desfeitas, não era possível dizer.

Ana se recostara a uma cadeira de espaldar alto, menos assombrada com a aliança em sua mão esquerda do que com o espelho na parede, de onde uma caveira a espreitava de volta, ostentando olhos fundos de culpa. Pelo reflexo, ela mirou o abajur que descansava sobre um criado-mudo, próximo a porta. Levantou disposta a agarrá-lo e lançá-lo longe, mas foi ao chão instantaneamente. Lucas se aproximou e acompanhou-a de volta à cadeira.

- Tenha calma. Você sabe que ainda vai demorar até a sua coordenação voltar ao normal.

- Falhei outra vez, Lucas. Eu me perdi de novo.

- Você não pode falhar se o seu objetivo é impossível de atingir, minha querida. Aceite.

- Eu quero o meu filho de volta – ela afundou a cabeça na camisa dele.

A avó de Ana, dona Judith, bateu na porta aberta e foi entrando. Ela se movia lentamente, apoiada em uma bengala por um braço, trazendo um livro grosso com a outra mão.

- A primeira-dama não ficou nada feliz com as notícias. Ela não quer patrocinar mais nada em que você ponha a mão, Lucas. E olha que ela tem prazer em se livrar do dinheiro do marido. Avisei, quando procuraram a minha ajuda, na primeira vez: não há nada que se possa fazer para trazê-lo de volta. O máximo que podemos ver é até onde ele teria chegado, não fosse o acidente. Mas você é teimosa, filha – A velha sentou na cadeira de balanço ao lado da cama e jogou o livro sobre os lençóis.

- Eu me lembro deste livro – Ana voltou os olhos escuros para o tomo.

- Claro que sim, é o que usamos para desligar a sua consciência há anos, nesta experiência maluca, não é? Eu sempre digo, a ciência é terra de gênios, mas não funcionaria sem o manto dos esclarecidos e isto, a minha magia pode fornecer – ela deu um tapinha carinhoso na capa do livro – O que viu no futuro dele, filha?

- Um momento - Lucas levantou, foi até o criado-mudo e pressionou um botão em uma caixa acústica, que registrou todo o depoimento de Ana, enquanto ela narrava toda a experiência, desde que se viu acordando em um beco escuro.

- Pierre adorava aquele playground... – Lucas suspirou, mas logo retomou o foco – Curioso, o seu cérebro projetou pessoas e lugares que nunca conhecemos. Querida, quem seria o tal Cristiano Ronaldo?

- Não sei, era um nome em destaque nos jornais futuros. Alguma coisa a ver com desportes.

- Não é nada com quem eu precise me preocupar, é?

- Acredito que não, mas Lucas - ela secou os olhos com a manga do vestido - Você estava morto.

- E você, turrona como sempre - ele usou um dedo para levar uma mecha solta do cabelo dela para trás de sua orelha - Levei uma semana para convencê-la a seguir minhas indicações! Mas era a única forma de ficar perto de você e tentar guiá-la. No entanto, só pude permanecer no primeiro nível de consciência. O que acontecia quando ia mais fundo?

- Não lembro bem. Isso importa?

- Sim, porque foi muito difícil convencê-la a voltar – ele pôs um joelho no chão, e mirou os olhos dela – Ana, não importa quão longe essa parafernália pode levar sua mente. O acidente com nosso filho foi parte imprudência e parte fatalidade.

- Ele não teria sido arrastado pela correnteza se eu não o tivesse levado de volta para casa comigo, sem ajuda! – ela explodiu, revirando na cadeira.

- Já fomos longe demais com isso, precisamos voltar para casa e esquecer este laboratório. Amélia, está na hora, vamos embora daqui – ele lançou um olhar significativo para a mulher e, com alguma dificuldade, ergueu Ana pelos braços. Levou-a para o carro, estacionado em frente à porta, e foram seguidos pela mulher.

Amélia assumiu o volante enquanto Lucas voltava ao interior do prédio, ressurgindo em instantes.

- O que está fazendo?

- O que eu deveria ter feito há anos. Amélia, vai!

Surpreendentemente, aquela senhora arrancou com o carro com a destreza de um piloto de corrida, alcançando 80 km/h em instantes.

- Por que a pressa...

A pergunta de Ana foi interrompida por um som ensurdecedor. Virando-se no banco, viu que deixavam para trás uma enorme coluna de fumaça, fragmentos voadores de uma casa implodida, que em breve seria  reduzida a vigas de concreto e um passado morto.

- Você não fez isso!

- E faria de novo, se fosse estúpido o bastante para reconstruir este circo!

Ignorando as reclamações e injúrias proferidas por ela, Lucas indicou o caminho a Amélia, que enveredou por um trajeto arborizado e parou em frente ao portão de um cemitério. Lucas fez a volta no carro e puxou Ana por um braço, sem muita delicadeza.

Caminharam lentamente, desviando de inúmeras lápides e cruzes no chão bem cuidado. Pararam em frente ao mesmo túmulo que Ana vira pouco antes de acordar. Ela sentou na grama e observou as palavras em letras pretas descascadas.

- Despeça-se dele agora, Ana. Ou de mim – a voz de Lucas era grave e furiosa.

- O quê? – ela se voltou ao marido, alarmada.

- Não vamos viver essa maluquice e usar nossos dons do modo errado! Tampouco quero que se mate antes do tempo por algo que não tem mais volta. Veja onde está o seu filho! Todos sentimos falta dele, mas conseguimos superar. Ele, com certeza já perdoou a mãe. Faça o mesmo!

- Lucas, não está sendo muito radical? – Amélia sussurrou para o homem, depois de puxá-lo para um lado.

- O fantasma que ela vê é a culpa, não Pierre, Amélia. Isto pode ser eliminado e será, de um jeito ou de outro.

A discussão continuou e nenhum dos dois pareceu se dar conta do menino de olhos cor de mel que se postava do lado de Ana, sentado na grama, com um sorriso sem tamanho no rosto, olhando de Lucas para a jovem mãe de olhos fundos.

- Eu ouviria o meu pai.

- Não deveria ter levado você ao hospital comigo. Eu deveria saber!

- Não pode mudar isso, agora.

- Você vai ficar bem sem mim?

- Pode ser.

- Aonde vai, agora?

- Não sei, mas é bom. Não se preocupa.

Ana suspirou.

- Por que a sua versão adulta tentava me esganar sempre que nos encontrávamos?

- Não era eu, mãe. Era você.

Ela arregalou os olhos, uma dúvida se desanuviando do seu olhar.

- Você não me culpa, então?

- Não – ele sorriu – acho que não. Tem muita coisa, aqui, não penso muito no que aconteceu.

Depois de algum tempo refletindo, ela assentiu com a cabeça.

- Não volto mais aqui, certo?

- Tudo bem. A gente se vê outro dia.

Ana se ergueu sozinha e caminhou lentamente até onde Lucas e sua avó ainda discutiam.  Ambos olharam espantados para a recuperação dela, mais rápida do que das outras vezes. Sem dizer nada ou olhar para trás, Ana agarrou a mão do marido e refez o caminho até o carro. Os três seguiram para a casa no centro da cidade, que já começava a se iluminar com as luzes dos postes das ruas, causando um efeito magnífico para quem via do alto da colina.

- Fez uma boa escolha, meu bem – sorrindo, Lucas levou a mão da esposa aos lábios, e beijou-a delicadamente. Amélia observou os dois pelo retrovisor por segundos, antes de devolver sua atenção à estrada.

- Não vou deixar que minha consciência me atormente mais - em um gesto involuntário, Ana passou a outra mão pelo pescoço e sentiu que faltava algo, mas não deu importância.

O laboratório de Lucas e Amélia estava localizado tão longe da cidade que, antes de alguém descobrir a implosão, talvez as chuvas frequentes da região já tivessem lavado todo o território. E, como se entendesse sua deixa, a água começou a despencar do céu sobre os destroços - ela nunca dava trégua.

Mas a água empoçada da chuva não foi a única coisa a se remexer naquele lugar.

Do meio dos escombros e cinzas, uma forma sólida se ergueu, no mesmo ponto onde Ana ficara presa dentro de um grande cilindro de metal. O rosto da figura era jovem, devia ter por volta de vinte anos, mas a sua expressão séria lhe dava um ar austero e envelhecido. Ele tinha braços fortes e, nos olhos, grossas linhas negras contornavam as íris. Íris cor de mel.

Em uma das mãos, ele segurava firmemente uma corrente de ouro envelhecido, também resgatada dos entulhos. Abrindo o pingente, um homem grisalho de expressão zombeteira e um menino com olhos idênticos aos seus sorriam para ele. Na parte de trás do pingente, um nome estava gravado em uma caligrafia rebuscada, Ana Marie Fortes.

Exatamente o nome que estava procurando.


***

*Originalmente postada no blog Canto e Conto, entre set/10 e mar/11.  A série "Ar de Evasão" surgiu da proposta de um Concurso de Contos, na linha do romance sobrenatural, para compor a Antologia "Beijos & Sangue". O conto raiz da série foi selecionado, em julho/2010, publicado no blog em setembro e a sequência veio a pedido dos leitores.

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