sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

[CONTO] Babélico (Ar de Evasão IV)

_ Você não bateu forte demais?

_ Ela vai sobreviver.

_ Eu estava pensando: a gente pode chamar a TV.

Pancadas ribombavam no teto.

_ E perder essa chance? Quando as pessoas souberem, vão jogar essa aí no zoológico.

As pancadas ficaram mais fortes e rápidas.

_ Pode ser coisa ruim, Marcão.

_ E daí? Se ela consegue entrar e sair de qualquer lugar, eu quero...

O som de um trovão abafou o fim da conversa.

Dezembro ia avançado, mas fazia frio.

Os sons de vozes masculinas e da chuva no telhado misturavam-se harmoniosamente a caminho dos ouvidos de Ana, que acabara de acordar, mas não abrira os olhos. Seu corpo estava pesado, sentia os pulsos e tornozelos doloridos, e algo pressionava os seus lábios.

_ Não abra os olhos e não se mova – ouviu a voz de Lucas em algum ponto acima de sua cabeça.

Ouvindo o retinir de metais à sua esquerda, porém, Ana não resistiu e afastou as pálpebras inchadas. Aos poucos, os contornos anuviados de duas figuras entraram em foco: os homens usavam jalecos verdes e não pareciam preocupados em esconder os rostos, de traços familiares. De onde os conhecia?

Ana só conseguia mexer a cabeça para os lados. Estava em uma sala cinzenta, pequena e aziaga. Ali, havia apenas a superfície plana onde a deitaram, uma janelinha de metal cuja altura jamais alcançaria, e uma longa estante cinza, com gavetas rotuladas a perder de vista. Vislumbrou a cabeça de um cadáver sobre uma das gavetas que estava sendo fechada; isso explicava o som metálico. Não parecia o lugar ideal para receber amigos.

As lembranças voltaram com o vento. Sim, ela acordara mais cedo em algum lugar macio, debaixo de chuva, mas fora nocauteada por um daqueles dois, não sabia dizer qual. Não perdera totalmente os sentidos, mas as suas reações se resumiram a gemidos de dor, durante o tempo em que a carregaram até aquele lugar. Agora, estava plenamente desperta e começou a debater-se sobre a maca, urrando.

_ Acordou – o homem ruivo forçou a mandíbula de Ana para baixo e o trapo sujo que cobria a sua boca encaixou-se nela. O moreno baixo aproximou-se pelo outro lado e aplicou um líquido transparente na veia da garota: em alguns segundos, as imagens começaram a ficar borradas e confusas, fazendo-a sentir como se o tempo tivesse desacelerado. Só então, o ruivo desatou a mordaça.

_ Agora você vai explicar como fez aquilo – o moreno começou.

_ Quê? – ela balbuciou, virando a cabeça para o lado direito.

_ Flutuar e depois cair no chão.

“Lucas, o que ainda estou fazendo aqui?”, ela pensou, mirando o amigo, que se postara entre os dois homens, à cabeceira da maca.

_ Ah, agora você me escuta. Quero saber o que eles querem de você e depois saímos.

“Eles vão me machucar?”

_ Não se atenha a bobagens, Ana! Vejamos o que querem; siga o plano parlamentar.

_ Ah – ela balbuciou, lembrando que haviam combinado algumas palavras-chave, para o caso de reações de urgência; o plano parlamentar pressupunha agir como um político comum. Ana tornou a olhar para o moreno – Não sei do que está falando.

_ Eu esperei com Luís do lado de fora do bar, pra dar uma surra naquele pateta grandalhão. E de repente, você estava lá, do nosso lado. Caindo do ar!

_ E?

_ A gente vigiava o lugar desde ontem. Vi você entrar lá com ele, mas não sair. Esse aqui não me deixa mentir – o moreno apontou para Luís – Eu diria que o seu segredo está seguro comigo, mas – ele sorriu, exibindo dentes amarelados – essa frase já tem muitos donos e a gente pode usar você pra algo melhor.

Ele lançou um olhar malicioso ao comparsa e depois tornou a observá-la, aproximando seu rosto do dela, de modo que ficaram a poucos centímetros de distância. Ela tornou a virar a cabeça para o lado, mas ele a puxou de volta pelo queixo com a mão rechonchuda, que tinha um cheiro verde, o aroma de alguma erva.

_ Como fez aquilo? – tornou a perguntar, cuspindo as palavras.

“Lucas, por favor?”

Enquanto ela tentava forçar a cabeça para cima, o amigo já se postava diante do ruivo, que engulhou baixo e perdeu os sentidos.

Ana esperava a ação de Lucas, observando furiosa o rosto do moreno, rente ao seu, quando sentiu ondas de calor desprenderem-se de sua face e percebeu as imagens, antes borradas, entrarem em foco. Inexpressivo, mas sem desviar o olhar da garota, o moreno começou a engulhar e desabou ao lado da maca.

_ Mas o que é que foi isso? – Lucas pareceu surpreso, especialmente com a tranquilidade com que Ana encarou a situação.

_ Sei lá, só me tira daqui.

Em movimentos curtos e rápidos, Lucas desatou as amarras das mãos e dos pés de Ana, que desceu da maca trocando os pés descalços. Ainda com o vestido que usara no casamento de Pierre, ela deixou a saleta guiada pelo amigo. Saíram no corredor mal iluminado de um hospital, onde havia macas de aspecto envelhecido dos dois lados, por toda a extensão.

_ Que lugar medonho... Lembra o meu Taberna, quando começamos a construí-lo. Bons tempos! - Lucas verificou.

Caminhavam em direção à curva no final do corredor, quando um enfermeiro surgiu de lá: vinha de cabeça baixa, folheando o bloco de uma prancheta. Ana começava a erguer uma mão para chamá-lo quando Lucas usou o vento novamente para empurrá-la na direção de um quarto escuro à direita, contra a porta entreaberta. Ela deslizou pelo chão até parar aos pés de uma estante de metal.

_ Vocês precisam parar de me jogar contra coisas. Paredes – ela olhou para trás, esfregando a parte de trás da cabeça com uma mão – paredes de ferro...

Lucas mal percebera que aquele quartinho era o almoxarifado, a voz de uma mulher cruzou a penumbra.

_ Olá?

Uma jovem enfermeira, de rosto afogueado, apareceu arrumando os cabelos. Um rapaz de jaleco branco surgiu das sombras atrás dela, igualmente ruborizado.

_ Ouviu algo?

Sem esconder o sorriso, Lucas fez sinal para Ana permanecer em silêncio e atravessou o cômodo até a última estante. O espectro soprou algo no campo de audição dos dois funcionários e ambos deixaram o local trotando, benzendo-se ao alcançar a porta, que trancaram com um puxão. Lucas fez uma cadeira ir deslizando até a maçaneta e escorou-a por baixo.

_ Fica aí, Ana – ele se afastou e começou a fuçar entre as estantes. Não demorou muito e estava de volta, deslizando um uniforme pelo piso empoeirado até os pés da garota.

_ Vista-se para sairmos daqui.

_ Ou eu posso ir até a direção do hospital e dizer que eles têm dois empregados pilantras, que torturam pessoas naquela sala cheia de gente morta.

_ Primeiro: você não vai querer contar a sua história. Segundo, preciso tirá-la daqui.

_ Este é o melhor lugar para estar se o que eles me deram for perigoso – ela bateu de leve no antebraço – Aliás, onde você estava quando me prenderam?

_ Não posso dizer que entendo o que acontece. Quando dorme, você desaparece das minhas vistas.

_ O quê? E nunca achou isso estranho?

_ Não tanto quanto duas pessoas de planos diferentes se comunicarem! Eu só consigo vê-la quando está consciente, ponto.

_ Mas não deu a mínima quando o seu irmãozinho brutamontes me arrastou daquela igreja, no meio da tarde!

_ Porque você apagou em algum lugar. Bêbada, eu suponho.

Ana fulminou-o com um olhar.

_ Troque logo estas roupas e vamos embora, menina.

_ Vira pra lá.

_ Não há nada aí que eu já não tenha visto.

_ Como assim?

A discussão provavelmente continuaria, não fossem as fortes passadas no corredor que só não eram mais audíveis do que o ruído da chuva fustigando as janelas e o som das buzinas vindo da rua.

_ Vem alguém aí. Silêncio.

 Lucas cruzou a porta e verificou que o ruivo, Luís, não apenas já estava de pé, como disparava pelo piso branco. Não conseguiria entrar ali a não ser que derrubasse a porta, mas ainda havia a possibilidade.

_ Parece que você derrubou um, Ana.

Para poupar tempo, Lucas fez os trajes de enfermagem entrarem em Ana de qualquer jeito e amassou a máscara em seu rosto. Ela só precisou puxar a liga para trás da cabeça.

_ Você imaginou que fosse tão fácil conseguir um uniforme de hospital? - ela sorriu.

_ Quem tentaria algo assim? – Lucas bufou. Era uma pergunta retórica, mas Ana abria a boca para responder quando ele a interrompeu – Vamos.

Assim que o homem sumiu na curva, ele abriu a porta e instigou Ana a correr. Aquele piso estava claramente em fase de reforma suspensa. As duas janelas, uma no início e outra no fim do corredor, estavam cobertas por lonas, impedindo que a chuva entrasse; havia cavaletes e latas pelo chão, e um buraco no teto deixava à mostra alguns fios mortos do sistema de iluminação.

Ana se demorou mais longamente observando a fiação, mas baixou os olhos em tempo de ver alguém atrás do último cavalete, próximo à janela do fim do corredor, a única fonte de luz agora. Ela recortava a figura de uma mulher, com um vestido que ia até os joelhos; o vulto estava coberto por sombras e parecia observá-los. Quando Ana estreitou os olhos para enxergar melhor, Lucas a empurrou na direção do corredor à esquerda, oposto ao que vira os dois homens seguirem.

_  Eu já estive aqui.

_ Claro que esteve. Circulando, Ana!

_ Eu já estive aqui, sim! É o hospital central de Alexandre. Estou em casa de novo.

Ela disparou sozinha pelas escadas, à direita. Desceu determinada os dois lances seguintes e enveredou por outro corredor. Sabia onde queria chegar e quem estaria ali, à sua espera, e apressou seus passos.

As paredes cinzentas adquiriam um tom esverdeado à medida em que Ana avançava; sombras de médicos, enfermeiros e pacientes transitando e conversando no corredor, em um dia normal no hospital, emergiram em sua mente, acompanhando a sua corrida. As vozes deles soavam distantes, mas eram familiares, como se ela tivesse encontrado conterrâneos em um país estrangeiro.

Contou mentalmente os quartos por que passava, tocando os portais por breves segundos, até dar um encontrão em alguém e cair sentada no piso frio. Era o ruivo, Luís.

O homem agarrou Ana pelo braço e puxou-a para si. Segurou-a pela cintura com um dos braços e prendeu a boca dela com a mão livre. A garota sacudia pernas e braços no ar enquanto era arrastada para trás, na direção do andar superior. Ele era mais forte do que parecia.

Lucas olhou ao redor, mas não havia um só objeto, no corredor daquele piso, que pudesse atirar contra o ruivo. Aproximou-se e mirou os olhos de Luís, mas nada aconteceu.

_ Opa.

“Que foi?”, Ana pensou.

_ Parece que só funciona uma vez. Esta é com você, menina.

“Mas eu não posso fazer o mesmo!”

_ Pode, sim! Tanto que fez, há pouco. Tente de novo!

Ela se contorceu como pôde, mas o homem a segurava com muita força. A alternativa era forçar a boca o suficiente para abri-la, e foi assim que conseguiu morder a mão do ruivo com ferocidade. Nos breves instantes em que ele a soltou, berrando de dor, Ana fincou as unhas no braço que a retinha pela cintura, virou-se e agarrou o rosto sardento de Luís entre as mãos úmidas. Não foi preciso muito esforço para sentir as ondas de calor sendo liberadas de seu corpo. Em segundos, Luís havia apagado.

_ Homem no chão!

Lucas bateu palmas e brincou com a ideia de Ana dar um espectro melhor do que ele, enquanto ela tornava a correr na direção dos quartos. A chuva ainda fustigava as paredes externas e o som de buzinas vindo da rua aumentara.

Enfim, alcançou a penúltima porta antes da próxima escadaria. Entrou, seguindo pelo caminho que bem conhecia. Observou cautelosa cada leito por que passava, mas continuou decidida até o último, logo abaixo da janela alta de ferro. E encontrou-o vazio.

_ Todo esse suspense para isto? – Lucas comentou sarcástico, ao que ela respondeu com um aceno negativo de cabeça e logo retrocedeu em direção ao corredor, seguindo escadaria abaixo. Não encontraram vivalma por onde passaram. No térreo, porém, a situação não poderia ser mais diferente.

Reinava uma algazarra sem precedentes no primeiro piso.

A água barrenta da chuva, tendo tomado conta das ruas, invadia a recepção. Pela porta viam-se pessoas abrigadas sobre um telhado, do outro lado da rua, ou tentando salvar pertences, atravessando a enchente. Ana sentia o cheiro acre dos resíduos da saída de água sob a ponte Larousse, misturados à enxurrada.

A cheia alcançava os joelhos de enfermeiros que se chocavam empurrando macas, carregando crianças ou apoiando idosos na direção do primeiro andar. Uma gestante de cabelos longos e úmidos, que lhe empastavam o rosto, subia os degraus com a ajuda do enfermeiro da prancheta, que viram no andar do necrotério.

Algumas pessoas ainda estavam em choque, outras berravam sobre a rapidez com que a água dominara o lugar, enquanto mais gente vinha da rua, pedindo ajuda, ou simplesmente, passando às pressas pela escadaria na direção do primeiro andar.

Uma dessas pessoas deu um encontrão em Ana, fazendo-a bater de costas contra o corrimão da escada. Apática, ela desceu até o piso, mesmo que a água continuasse subindo e já alcançasse o seu quadril.

_ Era para estar aqui.

_ E está, filha.

Em meio à balbúrdia, uma voz feminina rascante alcançou os ouvidos de Ana e sobrepujou a desordem. A garota não se virou: já esperava que a senhora de vestido longo aparecesse ali.

_ Onde ele está?

_ Adiante. Veja.

E ela o viu.

O menino de olhos cor de mel estava parado perto da porta, encharcado, observando-a de volta, alheio à movimentação das outras pessoas, com seus olhos e traços tão familiares. A lembrança de onde Ana o conhecia veio em forma de onda. Ela sussurrou algo antes de seus joelhos cederem, mas não foi ouvida.

Ana desapareceu sob a água turva.



***

*Originalmente postada no blog Canto e Conto, entre set/10 e mar/11.  A série "Ar de Evasão" surgiu da proposta de um Concurso de Contos, na linha do romance sobrenatural, para compor a Antologia "Beijos & Sangue". O conto raiz da série foi selecionado, em julho/2010, publicado no blog em setembro e a sequência veio a pedido dos leitores.

[CONTO] Dulçoroso (Ar de Evasão III)


Início de novembro. Ana sentiu o bafejar quente da criatura em seu pescoço, mas não abriu os olhos.

‘Deve ser um desses cães perdidos, que fuçam tudo o que encontram’, pensou, enquanto sacudia um braço para afastar o animal. Ouviu o gotejar da chuva que batia nas calhas ao redor e deduziu, com satisfação, que acordara em terra firme mais uma vez.

O bafejar se transformou em uma risadinha e dois cutucões, logo abaixo de sua orelha esquerda, seguidos por um forte puxão sob seus cabelos. Considerando o último semestre, Ana não poderia dar-se o luxo de duvidar do que existe entre o céu e a terra, muito menos nesse momento, quando era presa fácil para um possível inimigo.

Abriu os olhos inchados e encontrou, mirando-a de volta, dois olhos cor de mel, tão próximos que pareciam tentar radiografar a sua alma. Assustada, a garota empurrou a criatura e se arrastou de costas, tomando distância. Levou uma mão automaticamente ao peito, onde estava o velho medalhão emperrado da sua família. Era  uma peça média, de ouro velho, com um cordão grosso - o único bem que a ligava ao seu passado obscuro, às suas raízes misteriosas. E não pretendia perdê-lo, não importa o que tivesse de fazer.

Não era um animal, enfim,em todo caso, mas um menino de cinco ou seis anos, a julgar pela altura.

O que chamou a atenção de Ana foram os traços familiares no rosto e os olhos dele. Isto, e a bolsa improvisada da garota, neste momento balançando nas mãos do pequeno. A sacola continha alguns pertences, uma faca de cozinha e uma banana madura, que serviria de café. Decidiu não espantá-lo e perguntar o que queria com as coisas dela.

Esboçava um rouco “De onde conheço você?” quando o garoto abriu um largo sorriso e se lançou na direção da rua. Usava um terninho preto e Ana esfregou bem os olhos, para confirmar que estava acordada. De fato, havia um terno minúsculo atravessando a rua apressado, chacoalhando uma pequena cabeça no topo e uma sacola na mão direita.

Ela tomou apenas os segundos de que precisava para perceber que acordara, desta vez, entre os brinquedos de um playground, nos fundos de uma casa antiga, em uma cidade qualquer.

_ Lucas, você viu aquilo? Lucas?

O espectro não estava por perto, mas Ana decidiu não esperar: pôs-se atrás do menino, que já atravessara a rua e passava por um beco gramado entre duas casas.

Com o preparo físico que as perseguições e fugas ofereciam como recompensa, Ana imaginou que poderia inscrever-se para a próxima maratona de Alexandre. Ficar em uma boa colocação era moleza e qualquer prêmio compensaria a corrida. O verdadeiro desafio seria acordar na cidade no dia da prova.

Seu estômago começou a reagir ao amanhecer, mas ela não podia perder o menino de vista. Ignorou os reclames de seu corpo e continuou, agora desejando a fruta mais do que antes. Encontrou o pequeno parado, do lado de fora de uma capela, dez metros adiante, do outro lado da rua. Ele entrou no prédio, um sorriso travesso ainda brincando em seu rosto, e ela o seguiu.

Ao entrar, vasculhou o local rapidamente, mas a capelinha estava vazia. Ofegante e de cenho franzido, ela se sentou em um dos bancos lustrosos, fechou os olhos e deitou a cabeça sobre as mãos, no encosto do banco dianteiro. Ao reabrir os olhos, encontrou a sua bolsa ali ao lado, sobre o banco, da forma como sempre a deixava, ao parar em algum lugar: como um rolinho preso pelas abas.

Imaginou se a criança fora um delírio causado pela abstinência. Não fosse a única fruta da bolsa, que ela tratou de devorar antes que acontecesse qualquer outra coisa, aquele seria o segundo dia sem uma refeição de verdade, o que significava: nada cozido, quente ou com o melhor gosto do mundo. Deveria ter esfregado os olhos com mais força, ainda no playground. Agora, as suas pernas estavam trêmulas demais para ficar de pé. Adeus, maratona.

Ana passou algum tempo observando o altar e as colunas enfeitadas com flores brancas. Imaginou se devia fazer uma das orações que aprendera na infância, já que estava ali, mas lembrava-se tão claramente delas quanto das feições de seus parentes. Ela não sabia dizer se já entrara em uma igreja, antes. Em todo caso, duvidava de que conseguiria raciocinar enquanto não se alimentasse de verdade. Levantou decidida, fez algumas voltas com as abas da bolsa no punho e caminhou até a porta.

Lucas surgiu rente ao portal, mas o susto que Ana engoliu não conseguiu interromper a sua marcha. Ela atravessou o amigo e a sensação foi a mesma de um desfalecimento. Catou cavaco até cair esparramada, no piso de pedra da beira da escada.

_Por que só apareceu agora? – perguntou, enquanto apoiava-se no piso, para ficar de pé. Seu queixo tremia muito.

_Não sei. Como conseguiu acordar em uma capela?

_Não acordei aqui.

_Não importa, meu bem, é melhor sair daqui rápido, os convidados estão chegando.

_Do que você me chamou, Lucas? - Ana sentiu um embrulho esquisito na barriga; algo se contornia ali dentro, usando garras e tentando sair à força.

_Venha – Ele a puxou pelo braço, utilizando o vento da forma como aprendera, no início da primavera.

Inúmeros carros faziam fila de um lado da calçada e pessoas elegantemente vestidas se dirigiam à porta da capela que, vista de fora, era bem maior do que parecera há pouco. Lucas indicou um dos lados da igreja e Ana o seguiu.

_Tenho algo para você, enquanto o noivo se acomoda na sacristia – ele apontou para um pequeno pacote disforme, largado sobre a grama.

_O noivo é cego? – ela se surpreendeu ao ver o rapaz que chegava, com uma flor na lapela e uma venda cobrindo os olhos. Ele era guiado até a igreja por outro homem, que também usava roupas de domingo e o ajudava a subir os degraus.

_Você não acreditaria nessa história. Aliás, mocinha, já pedi para você substituir estes termos chulos. “Cego”? O que tem aprendido comigo, nas aulas?

Lucas resolvera que, nos longos momentos sem suspeitos a seguir ou esperando que os mesmos fizessem alguma besteira, ele daria aulas de idiomas e de conhecimentos gerais a Ana. Ela poderia compensar uma parte dos ensinamentos escolares que vinha perdendo, desde que a sua anomalia se tornou um impasse aos estudos.

_Em todo caso, creio que gostará de presenciar este casamento. Vamos, abra o pacote! – Lucas bateu palmas, sorrindo. Ana não reagiu com o mesmo entusiasmo, até descobrir o que embrulho trazia: no topo, havia um saco de papel contendo um pão e uma variedade de frutas fresquinhas e limpas.

Ela não contou o tempo de admirar as maçãs e começou a devorá-las uma a uma. Só quando parou para respirar, percebeu o que viera no fundo do pacote: um vestido de estampa florida em rosa, amarelo e verde, mais um par de sapatos amarelo claro, sem salto. Não perguntou qual era a procedência de tudo aquilo, porque, sempre que o amigo aparecia com novos objetos, dizia que vinham de ‘felizes acasos de infelizes’.

Ana esfregou os olhos com bastante força, dessa vez.

_Eu vou entrar? – mirou o amigo com olhos satisfeitos – Por quê?

_Porque eu vou e você vai comigo.

Ela preferiu não discutir.

Ana tinha algum trabalho a fazer com os detalhes que Lucas não conseguira arranjar, o que era, basicamente, todo o resto. Mas ele a encorajou, dizendo que provavelmente causaria espasmos de inveja nas convidadas, quando vissem a pele perfeita do seu rosto.

O banho rápido, em uma fonte ali perto, foi a parte fácil. O cabelo é que a tirou do sério: ela inventou uma série de nós com os fios grossos, mas todos faziam a sua cabeça parecer um ninho de joão-de-barro. Lucas sumiu por instantes e quando Ana ouviu a voz dele novamente, esta vinha da direção da fonte.

_Aqui, corte fiapos com aquela faca – ele apontou para um cipó verde escuro rígido, à beira da fonte, onde o terreno era alagado – Isto é junco. Vai segurar firme o seu cabelo e fazê-lo parecer bonito – continuou, enquanto ela sacava a faca de cozinha.

_Eu ouvi dizer que junco leva uma semana para secar.

_Deixe os detalhes para a minha pessoa, Ana.

Este era o dia mais diferente de que a garota se lembrava, especialmente pelo fato de que havia pequenas rajadas de vento trançando o seu cabelo com fiapos verdes de junco, à beira de uma fonte, em terras desconhecidas.

Lucas e a sua acompanhante conseguiram entrar na igreja antes da noiva, o que não era uma vitória maior do que ver as senhoras por quem passavam virando as cabeças na direção de Ana.

_Eu não disse que você causaria passamentos? – Ele sorria e acenava para todos, ainda que não pudessem vê-lo. Ana, que não sabia onde pôr as mãos, murmurava que não deveriam estar ali sem convite.

_Vamos! O pior que pode acontecer é a noiva confundir você com o buquê!

Ela bufou, mas sorriu.

A noiva chegou com quarenta minutos de atraso, segundo o que Ana conseguiu captar das conversas entre os convidados sentados mais perto dela. Ela se sentara na extremidade de um dos bancos, com Lucas de pé, ao seu lado.

Durante toda a cerimônia, ela observou, o noivo permaneceu com a venda sobre os olhos e só começou a desamarrá-la quando o padre lhe ordenou que beijasse a noiva.

‘Qual é o mistério do lenço?’, Ana pensou, lançando um olhar a Lucas, sabendo que ele podia ouvir o que se passava em sua mente.

_Digamos que ele redefiniu a tradição sobre não ver a noiva antes do casamento – Lucas posicionou as duas mãos na própria cintura, orgulhoso.

‘É brincadeira?’

_Não, é o meu pupilo.

Ana observou incrédula enquanto o rosto de Pierre emergia do lenço azul.

A recepção aconteceu no pátio atrás da igreja e, a despeito dos atalhos que utilizaram para entrar sem convite, Ana desejava fugir dali o mais rápido possível, antes que o noivo a encontrasse e resolvesse terminar o que começou no bar, meses atrás.

_Ofereço-lhe a chance de ver um casamento razoavelmente interessante, entrar sem convite em uma festa belíssima, repleta de comida, e você me aparece com essa expressão de “minha carroça virou no rio”? O que há de errado com você?

_Primeiro: o casamento foi muito bonito. O que me preocupa é estar inteira, no café de amanhã.

_Ele não vai reconhecer você, mesmo.

_Como pode ter tanta certeza? – ela sentiu um forte puxão na barra de seu vestido. Virou-se em tempo de ver o mesmo menino que fugira com a sua bolsa, pela manhã. Ele tornou a correr na direção da capela.

Ana desligou qualquer defesa e nem se importou em chamar Lucas desta vez, porque pegaria aquele baixinho de jeito, agora. Ela sorriu indulgentemente para alguns convidados e, uma vez que estava fora das vistas de todos, correu na direção do garoto.

Ainda correndo, o menino entrou na igreja e ela seguiu seus passos, desta vez atenta a qualquer movimentação sob os bancos e na direção do altar, para onde se encaminhou apressada.

_Está fugindo de quê? Pode cutucar e roubar, mas não encarar, é? Cadê você, pivete?

Ana bufou e passou as mãos, nervosamente, pelos cabelos, que começavam a se soltar da longa trança. Procurou embaixo das cadeiras, do altar e, nada encontrando, dirigiu-se à sacristia. Fez um giro completo para a entrada, ao ouvir um pequeno ruído, mas o garoto não estava lá.

Dera apenas três passos na direção da porta, esfregando as mãos contra o rosto, quando sentiu seu corpo ser puxado contra o de alguém, em uma chave de braço.

_Eu não sei como entrou aqui, mas quero saber o que pretende.

Era a voz de Pierre.

_Logo hoje! Qual é o seu problema? E não venha com a história da fome, de novo, que não desce.

_Lucas – ela sussurrou, chamando pelo amigo.

_Também não caio nessa. Aliás, quem me garante que você não tem algo a ver com a morte do meu patrão?

Ele liberou o pescoço de Ana, mas pressionou sua mão contra a boca da garota. De um bolso interno do paletó, puxou o mesmo lenço azul que usara durante a cerimônia e, sem desviar o olhar do rosto da moça, utilizou-o para amarrar os pulsos dela um ao outro.

Arrastou-a, pelos fundos da sacristia, na direção de um carro, que estava estacionado na lateral da capela, onde não havia convidados à vista. Depois de acenar para um homem de terno, que observava a cena da porta da sacristia, Pierre jogou Ana de qualquer jeito no banco do carona.

Alcatão era cidade irmã de Alexandre, mas Ana nunca a visitara antes, nem em evasões. Perguntava-se onde Lucas estaria e se a ligação entre eles lhe permitiria encontrá-la em qualquer lugar. Fazia vinte minutos que ela não considerava a possibilidade. Talvez ele precisasse conversar com outros espectros.

Pierre estacionou do lado do bar e fez a volta. Ana tentou escapar, mas não teve sucesso. O dono do bar guiou a garota pela porta dos fundos, que estava destrancada, mas não ficaram na cozinha: ele a empurrou na direção do porão.

Ana engoliu em seco, aterrorizada pelo silêncio. Na ausência inexplicável de Lucas, preferiu ficar quieta e seguir as ordens. Enquanto descia as escadas, observou de relance os quadros pintados diretamente na parede e todos pareciam apenas uma parte da pintura bizarra do local, mas um deles reteve mais a sua atenção. A penúltima foto mostrava o menino de olhos cor de mel sorrindo, sentado em um balanço de parque.

Alcançaram a base e Ana foi empurrada novamente, desta vez, na direção da parede. Pierre trancou a porta e caminhou lentamente até postar-se cara a cara com a garota.

_Fala.

Ana lançou ao rapaz um olhar carrancudo, permaneceu em silêncio e se sentou no chão, de braços e pernas cruzadas.

_Não vou perguntar de novo.

Silêncio.

_Você sabe que esse lugar está todo gradeado, justamente por sua causa, certo? Não pode sair.

Ela deu de ombros.

Sem tirar os olhos da moça por mais do que breves segundos, Pierre foi até uma mesa coberta de ferramentas perto da porta e agarrou um punhado de cordas grossas e um martelo. Sem mais delongas, atou firmemente os pés de Ana e suspirou forte. Balançou o martelo a centímetros do rosto da garota por alguns instantes.

_Amanhã – ela respondeu olhando para o piso sujo, sabendo que só precisava dormir um pouco. Um sorriso brincou em seu rosto, que estava encoberto pelos cabelos claros, agora soltos.

Pierre se agachou para observá-la à altura dos olhos e virou a cabeça, com desdém, em resposta.

_O que me impede de quebrar os seus dentes bem agora?

_Na hora em que eu resolver falar, é bom que eu consiga falar, não é?

Ele baixou a cabeça, passou a mão livre pelos cabelos. Levantou-se decidido e atirou o martelo contra a parede, fazendo aparecer uma mossa no ponto onde a ferramenta bateu.

_Cinco horas – ele apontou um dedo ameaçador para a moça e saiu, batendo a porta e trancando-a por fora – você não vai fugir!

_Nem vou tentar.

Pierre voltou, às cinco da manhã, mas Ana estava certa: saiu dali de olhos fechados e antes mesmo de acordar.





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*Originalmente postada no blog Canto e Conto, entre set/10 e mar/11.  A série "Ar de Evasão" surgiu da proposta de um Concurso de Contos, na linha do romance sobrenatural, para compor a Antologia "Beijos & Sangue". O conto raiz da série foi selecionado, em julho/2010, publicado no blog em setembro e a sequência veio a pedido dos leitores.